DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA MINEIRA DE LETRAS
Neste momento em que a emoção transborda, recorro ao poeta anônimo de Cuitelinho, para quem, “o coração bate aflito, bate uma, outra falha... os olhos se enchem d’água que até a vista se atrapalha”. E não é para menos: coisa para banda e foguete, alma suspensa em alegrias. Epiphanio Camillo, fraterno companheiro de tertúlias literárias sentenciou: “para um menino nascido em Morro do Ferro, não é pouca coisa, não”.
Por isso, e como testemunhas deste ato tão singular e expressivo em minha vida – poderoso ritual de passagem a que me submeto com pompa e circunstância, mas com a espontaneidade possível –, aqui estão minha família, minha primeira professora, a diretora de minha primeira escola, amigos queridos, pessoas especiais pelo estímulo na caminhada que me trouxe a esta culminância. A Demosthenes Romano, meu pai, um quixotesco fabricante de sonhos imortalizado na saudade, a homenagem de minha gratidão.
Misteriosa é a trajetória do homem na Terra. Seja-me, pois, permitido mirar caminhos e circunstâncias. Morro do Ferro, amorável lugar onde nasci, é o único e último distrito de Oliveira. Na descrição do ilustre conterrâneo Ariosto Silveira, em livro ainda inédito, a região fica “no coração mineiro, longe das fronteiras, senhora de si mesma”. Por ali passou Fernão Dias, a caminho das minas. Por ali, na Picada de Goiás, chiaram bruacas e cangalhas. Apesar da mineral denominação e das pedras cúbicas de hematita que encascalham as estradas de terra, ali se fixou foi uma comunidade rural, “humilde e soerguida no ramerrão lento e fecundo dos enxadeiros, criadores e mercadores”. O viajante europeu notaria, mais tarde, que os fazendeiros só ocupavam as casas do arraial aos domingos, para ouvir missa.
O lugar é consagrado a São João Batista, que já lhe deu o nome, e a festa do padroeiro continua sendo o grande acontecimento dos batistanos.
Memorável era a Festa de Junho – ou, simplesmente, “a Festa”. Entre São João e São Pedro, encarreiravam-se outros santos, deixados de lado pela falta de padre permanente. Vinte, trinta, gementes carros de boi chegavam com canastras cheias de quitandas, frangos pendurados nos fueiros, mudança para uma semana. Depois, muitos iam ficando, no embalo de comentários e lembranças daqueles dias tão esperados.
Passada a festa, voltava-se ao reme-reme costumeiro. Os aviões, riscando o céu, não quebravam o isolamento do lugar, mas sinalizavam mundos distantes. A luz veio, foi-se embora numa enchente, voltou tempos depois.
Sem ela, contemplavam-se as estrelas, imaginava-se a imensidão do universo acima da cabeça, abaixo dos pés, além das montanhas e do alcance dos olhos. Cedo se aprendia que atrás de morro sempre tem mais morro, até não acabar mais. No rádio da venda, o Repórter Esso, testemunha ocular da História; a hora certa da Rádio Relógio, a Hora do Brasil, cotação do café e do cacau. No aviso aos navegantes, notícias do litoral distante, mistério de faróis e bóias apagadas, tudo acompanhado com incompreensível atenção . Duplas e trincas sertanejas competiam com novelas. Dom Rafael de Juncal, vítima de brutal derrame, tenta, há vários capítulos, revelar quem é o pai de Albertinho Limonta. No auge da ansiedade, a bateria arreia.
O telefone, de magneto e manivela, também custou a vir para ficar. Mesmo assim exigia berros que quase dispensavam o aparelho. Por esta época, a jardineira já corria todo dia, embora “correr” seja pura força de expressão.Mesmo com o luxo do correio diário, o jornal, do Rio, chegava com três dias de atraso.
Com a luz elétrica , o rádio perdeu a bateria e ganhou as casas: éramos todos fãs da Emilinha e do César de Alencar. Mas quase ficamos neurastênicos com certa música que não parava de tocar. A televisão trouxe o susto de um mundo em transformação, o fim das cadeiras na calçada. À boca da noite, traiçoeira no medo de avós, recolhiam-se as crianças. A prosa no serão se recolheria mais tarde, humilhada pelo poder da telinha e substituída pelas conversas dos televizinhos. Mas isso foi muito depois.
Em 1948, nas brisas da democracia, os Romanos pegam o caminho da roça. Vão morar nos Romeiros, lugar bonito, para os lados de São Tiago. Um certo menino, depois de regressar da primeira viagem em seu próprio cavalo, estirão de oito léguas, coisa pra homem, troca de roupa e proseia no alpendre. Traseiro ralado, olhos cheios de paisagem, assim resume sua primeira aventura: “Olha, gente, quem quiser saber como este mundo é grande, viaje pros lados de São Tiago”.Nos Romeiros, o contato com a natureza e com os vizinhos da roça ensina e enriquece, compensando a dureza da vida e da lida. O lugar, porém, não tem escola e o menino sai de casa pela primeira vez. Morar com os tios em São João Del Rei, no fraterno convívio com os primos, é luxo que ameniza a saudade dos pais e irmãos. Inesquecíveis são o cheiro de cipreste, a neblina das manhãs, mocotó fumegante em noites frias, Semana Santa de incenso e matraca, música e canto de sinos e igrejas. Ah, e a alegre liberdade de andar de bicicleta pela História!
A volta à família, ao fim de um ano, prepara despedida. O primeiro amanhecer no dormitório do internato,o Instituto Pinheiro Campos, é despertar para um novo tempo. Ali, sob os cuidados do competente mestre e querido amigo professor Paulo, e sua família, o adolescente tímido se sente empunhando pequena tocha que lhe caberia manter por toda a vida. Faz por onde merecer a oportunidade que a muito custo os pais lhe oferecem.
Primeiro a sair de casa, pensa na avó paterna, que aprendeu a ler escondido. Com sacrifício, ela paga adiantado o curso normal da primogênita, incumbindo-a de encaminhar os irmãos. Elo de forte cadeia, ele se vê começando nova volta do parafuso.
Oliveira sempre se orgulhou de seus filhos ilustres: o cientista Carlos Chagas, Tia Lilita, renomada educadora, Djalma e Paulo Pinheiro Chagas, importantes homens públicos, sendo Paulo Pinheiro também ilustre intelectual que engrandeceu esta Academia com seu talento. Nery de Abreu foi-se sem o merecido reconhecimento. Na geração anterior à minha, brilhavam Eliseu Resende, Geraldo Ribeiro de Barros, aqui presentes, e Honório Silveira Neto, que já não se encontra entre nós. A cada geração, honrou-se a presença da cidade na poesia de vanguarda, na literatura em geral, no teatro, na cultura popular, nas artes plásticas e arquitetura, no design de jóias, recentemente, e na preservação do patrimônio cultural, sobretudo no seu aspecto imaterial. Mesmo com o risco de omissões involuntárias, pelo que antecipadamente me desculpo, lembro os nomes de Amanda Vargas, Azuil, Heraldo e Sefisa Laranjo, Gláucia Silveira,Heloísa Muniz,Hugo Pontes João Bosco Ribeiro, João Rabiço, Judas Tadeu dos Mártires, Luis Alberto Pires, o MAPA, Márcio e Maurício Almeida, Márcio Gato, Maria Iris e o Coral Vozes em Canto, Maricélia e Toninho Nicácio, Mauro Fernal, Múcio Lo-Buono, Nelson Leite , Paulo Thielman, Psiu, Saulo Sabino , Sérgio Carvalho e Waldemar Oliveira. De Morro do Ferro, tenho a companhia de Marcelo Freitas e de Vivina de Assis Viana, texto sensível de que são exemplos O dia de ver meu pai e Rei dos cacos.
Oliveira se colore nas procissões, no congado e no carnaval. O congado é tradição renovada ano a ano, três gerações no mesmo culto ancestral, que a nossa querida Titane tão bem ajuda a perpetuar. Os “Cai N’água” são herança medieval de palhaços embuçados que alegram o carnaval de rua.
De passagem pela cidade, em 1910, Belmiro Braga, integrante da primeira geração de acadêmicos mineiros, escreveu:
Foram-me as horas benditas/Em vossa terra feliz/Terra de moças bonitas/ Terra dos homens gentis!/Agora penso também/Abençoada a canseira/ de todo aquele que vem/Buscando a vossa Oliveira.
Belo Horizonte era fria e garoava. A cidade recendia a dama da noite. No Colégio Estadual, traços de Niemeyer ainda cheirando a tinta fresca, Wilton Cardoso recitava cantigas de amor e de amigo, Etienne agitava no teatro, no esporte e na literatura, mestre Veloso acertava o relógio pelas caminhadas de Emanuel Kant. Nos eventos culturais, nas relações afetivas, na Universidade Católica e no trabalho, encontraria depois as figuras luminosas de Edgard e Aires da Mata Machado, Melo Cançado, Cândido Martins de Oliveira, João Camilo de Oliveira Torres, Orlando de Carvalho, Raul Machado Horta, Bonifácio Tamm de Andrada, cujos nomes engrandeceriam esta Casa de Alphonsus de Guimaraens.
No “Estadual”, fervilhávamos militando na Ação Católica – o “ver, julgar e agir” do padre Lebret, o ardente desejo de transformar o mundo, de ser o sal da terra, o fermento da massa. O carisma de Betinho eletrizava.
Sobrevivente da tuberculose, hemofílico incurável, o enfrentamento cotidiano da morte parecia rebrotar nele em lucidez e ousadia. Frei Mateus, dominicano de Dom Silvério, recém-chegado da França, capitaneava sonhos de mudança para um mundo fraterno. Edgar da Mata Machado, Aluísio Pimenta, Moacyr Laterza compunham a vanguarda que iluminou nosso caminho de testemunho cristão e busca da transcendência.
Encantados com o lirismo de Michel Quoist, bebíamos Jacques e Raíssa Maritain e suas grandes amizades. Mounier juntava cristianismo e humanismo. Com Bernanos, lemos o Diário de um Pároco de Aldeia sob o inclemente Sol de Satã. E havia, também, Exupèry. Depois do Pequeno Príncipe, de citação obrigatória, embarcamos num Vôo Noturno, acordamos como Piloto de Guerra, atingimos a Cidadela. Seguíamos Tristão de Athaide, éramos sócios de Corção em Três Alqueires e uma Vaca. Vibrando com as peripécias d’ O Excêntrico Mr. Blue, mirávamos a Estrela de Alto Mar, sabendo que Homem Algum é uma Ilha. Escalar A Montanha dos Sete Patamares era para poucos, mesmo Thomas Merton dando força em seu refúgio num convento trapista.
Jean Mermoz, companheiro de Saint-Exupèry e sobrevivente de uma pane nos Andes, venceu fome, frio e dor nas geleiras andinas antes de pronunciar a frase que não parávamos de repetir: “O que eu fiz, bicho algum, só o homem era capaz de fazer”. Com Frei Chico, sucessor de Frei Mateus, recitávamos que “mais vale morrer novo e usado do que velho e mofado”.
Universitário de Direito, o jovem se atira à política estudantil, gosto que provara no Ginásio em Oliveira. Atua em diversas frentes, integra a diretoria da União Estadual dos Estudantes. No Partido Democrata Cristão, faz parte dos diretórios municipal e estadual, funda e preside a Juventude Democrata Cristã.
Grato a parentes e amigos que lhe haviam propiciado carinho, pão e teto, inaugurara a fase das repúblicas e pensões. Indescritível era a Casa Amarela, bem ali onde a Avenida Brasil desemboca na Praça da Liberdade.
Tentava-se implantar uma república cristã e solidária para muitos de ganhos incertos à custa de espichar o curto rendimento de uns poucos. Mas nunca faltou abrigo para companheiros que, em meio a intermináveis elucubrações, perdiam o último bonde – Floresta, Pampulha, Calafate...
Perito criminal concursado, inicia, ainda vestibulando, carreira de ricas oportunidades de servir e aprender. O magistério, vocação aflorada ainda no ginásio, é mais atraente que o Direito. Leciona em todos os níveis de ensino, atua no treinamento empresarial e público. Mas o coração pulsa é no desejo de escrever, sonho e fascínio da vida inteira.
A alegria dos primeiros textos publicados vem nos anos 60, num guia trimestral de viagens, em jornais estudantis e institucionais, uma e outra crônica no Estado de Minas e no Diário de Minas. O sonho secreto era (e continua sendo) contar a saga da avó paterna, casada à força com um tio,
40 anos mais velho, para cumprir palavra do pai. Ela, porém, se apaixona pelo padre italiano do lugar, que a manda roubá-la. A jovem e o portador vêm “de galope, deixando abertas as porteiras todas”. O casal tem quatro filhos, que assistiam, com a mãe, às missas celebradas pelo padre-pai.
Falando e pensando no romance, o tempo passou, cheio de afazeres e obrigações.
Senhoras e Senhores,
Um dia, beirando os 40 anos, dei-me conta de que nada fizera ainda pelo sonho de minha vida. Tomado de incontrolável urgência, resolvi começar contando casos, como quem toma a sopa pelas beiradas. Recuperei cenas e personagens, vozes, jeitos e trejeitos gravados na memória e no coração.
A televisão já chegara a todo canto. Os velhos morrendo, os jovens saindo, ia-se a memória de tanta coisa vista, vivida e escutada. Enquanto era tempo, pus o pé na estrada. Começando por Morro do Ferro, fui atrás da música perdida nas entonações, nos deliciosos arcaísmos, nas artes e manhas da palavra saída da boca do povo.
Dureza era recolher histórias durante o dia. “Nasce rabo”, garantiam.Em Câmara Cascudo o enigma se decifra o enigma: “contar história de dia, nasce rabo de cutia”. Ora, sendo a cutia rabuca, o provérbio pela metade acabava surtindo enganoso efeito, difícil de contornar. Às vezes, diante de determinada pergunta, o sujeito ladeava, evitando mão em cumbuca: “vejo falar, não dou definição”. Encontrei gemas preciosas. O barranqueiro do Carinhanha, no aperto de explicar como esculpia na madeira, parafraseia Miguel Ângelo sem saber: “eu pego o pau, vejo o bicho que quero. Aí, tiro o resto com o canivete”. Pura e arrematada prova de que o vento da inspiração sopra por onde quer. Arguto professor canadense, perguntou-me, em curso no Banco Mundial: “você já observou que não há analfabeto oral?”. Tia Onofra, velha catadeira de papel, perdera o barraco numa tempestade. Ao chegar lá, contava: “Os cachorro miava que nem gato. Tava tudo no chão, meu filho. Em pé só ficou os arvoredo!”. E por aí poderíamos seguir, noite adentro, sem parar. Neste caminho, o caminho do coração, aprendi, convivi, me emocionei. Sobretudo, lapidei um dom, aquela fagulha que nos faz sentir mais perto do que realmente somos. Como o famoso saxofonista que, após magnífico improviso, declarou: “Sinto que sou do meu tamanho”. Um tamanho que, na mesmice do cotidiano, nem podemos vislumbrar.
Uma coisa eu garanto: contar caso, contar história, faz bem à saúde. Até salva a vida – Sherazade que o diga. Henrique Mateus, morador no Quebra Cangalha, era cardiopata em estado avançado. Mas, performático por natureza, cantava, dançava, pulava, fazia tudo quanto era papeata e bizarria para ilustrar suas histórias. Naqueles instantes mágicos, voltavam-lhe o fôlego, a cor, o ânimo, como atestou meu amigo Ronaldo Simões Coelho, médico e escritor, aqui presente.
“Se puderes viver sem escrever, não escrevas”, disse Rilke. Eu não pude.
Inventei tempo e coragem que não julgava ter. Superei limites, movido por incontroláveis apelos da alma. A suor e sonho, abri minha picada. Escutei muito caso, contei caso dentro de escola, de empresa, no meio da rua, sozinho, de cara limpa ou com violeiros e cantadores. Varei esse chão de Minas, andei pelo São Francisco, beirei o Jequitinhonha, entrei pelo Jacaré, fui cair no Rio Grande atrás de caboclo d’água, estória de pescador...Pisei o pó da estrada, recolhi muitos tesouros, fiquei rico de alegrias, achei meu rumo na vida...
Trago o coração aquecido pela legitimidade daqueles cujo universo tanto me esforcei por retratar. Dalila, viúva de Seu Quinho, primeiro grande contador de histórias que conheci, retomou certo texto de Casos de Minas, contou novas peripécias do personagem e pronunciou inesquecível julgamento: “O que eu gosto no seu livro é que ele parece a vida da gente”. Seu filho José Maria, que vi entronizado como sucessor do pai, está presente e talvez se lembre disso. Maria Lúcia Simões, amiga querida e premiada escritora, deu um exemplar do mesmo livro a um tio. Mineiro da gema, expatriado no Rio de Janeiro, os casos mineiros e a goiabada com queijo eram a Minas ao alcance da mão e do paladar. Idoso, vivia lendo o livro. Doente, ouvia pelo menos um caso por dia. Ultimamente, só alisava a capa do livro. Morto, levou Casos de Minas em sua última viagem.
Chego agora a este cenáculo, a que apenas 40 em 16 milhões de mineiros têm acesso. Uma vez, Vivaldi Moreira, pilar e guardião inesquecível desta Casa, estimulou-me a me candidatar. Mas era tempo de metamorfose, eu andava posto em alquimias.Depois, no entanto, considerando o trabalho que já ganhara maioridade, plenamente legitimado pelos remanescentes da Minas rural de onde vim, admiti me colocar, quando fosse hora e vez.
Faço agora uma revelação. Ano passado, ao contemplar, na câmara mortuária, o sereno semblante de Edgard de Vasconcelos, na paz dos que cumprem cabalmente a missão na Terra, refletia sobre a exemplar trajetória por ele percorrida, a admiração – infelizmente nunca expressa – por aquela rara figura de homem, de cidadão e intelectual. No silêncio de hora tão profunda, ao lado de minha mãe e irmãos, a família dele e minha entrelaçadas por afeto e parentesco, afloraram afinidades que ultrapassavam simples coincidências: a profissão de nossos pais (farmacêutico, o dele; dentista, o meu), a origem em famílias numerosas
(17x15 para ele), a educação severa, com prevalência do ser sobre o ter; o impulso para crescer nas dificuldades, pois, como lembra Guimarães Rosa, “o sapo não pula por boniteza, mas, porém, por precisão”... À afinidade de carreiras (serviço público, magistério e política), embora sem a pretensão de comparar graus de desempenho ou brilho, acrescentei o interesse pelo mundo rural – ele regendo sofisticada partitura, eu tocando apenas de ouvido. De repente, veio-me o fogo impetuoso de uma inspiração. E o que até então vagava pelo cérebro, tocou a alma, transformando-se em ardente desejo de sucedê-lo. Movido por força poderosa, empreendi campanha intensa e memorável, que acabou por trazer-me a este píncaro.
Senhoras e Senhores,
A imortalidade, nas religiões, se alcança após uma vida virtuosa.
Os deuses gregos viviam num estado de Athanatos (não morte), graças ao néctar e à ambrosia. O Paraíso platônico é a Via Láctea, na qual penetramos após a morte. Enquanto isto, cada um carrega, como pode, sua chispa de eternidade, essência das estrelas. No mito de Eros e Psique, ela é quem nos abre as portas do Olimpo. Vida, Amor e Morte, eis o triângulo que circunscreve a vida humana. “Amor é primo da Morte, e da Morte vencedor, por mais que o matem, e matam, a cada instante de amor”, garante Drummond. Perpetuado nos descendentes, ou realizando grandes feitos, o homem tenta fugir da morte. Como ensina Junito Brandão, “ a ponte que liga a Terra da Vida à Terra da Morte é o Amor, única sobrevivência e único significado para nossa vida!” Nas Academias, de fraterna convivência entre pares, assegura-se a imortalidade pelo constante rememorar dos que se foram, evitando-lhes a morte pelo esquecimento. Prestemos, portanto, o tributo de saudade em memória dos que compõem a linhagem da cadeira número 37, que ora tenho a honra de assumir.
O patrono da cadeira é Manoel Basílio Furtado. Graças à sua competência profissional e qualidades humanas, este clínico notável fez-se querido e respeitado por seus contemporâneos . Sua obra “é um dos belos monumentos da ciência em nosso país, notadamente na parte relativa à zoologia, à antropologia e arqueologia indígenas”, como assinalou Aníbal Matos. Na qualidade de correspondente científico e auxiliar do Museu Nacional, enriqueceu-o com preciosas contribuições. No biênio 1868-1869, exerceu mandato parlamentar. Depois, nenhum convite foi capaz de retirar do convívio da família este cientista que, desde os tempos de seminarista em Mariana e no Caraça, conhecia e amava profundamente os clássicos latinos.
O fundador da cadeira é Olympio de Araújo. Poeta, teatrólogo, jornalista, defendeu as idéias de Baden Powell, pai do escotismo. Enfrentou ferrenha oposição paterna no caminho do aprimoramento intelectual. Atraído pela política, exerceu vários cargos de âmbito local até alcançar um mandato na Câmara Estadual, de 1903 a 1906, como representante da Zona da Mata, especialmente da cidade de Rio Novo.
Na Velha República, em que coronelismo, enxada e voto sustentavam o poder, ele antevia na agricultura, devidamente modernizada, a solução para nossos problemas econômicos, Dentre outras medidas, propôs a contratação de especialistas para ministrar o ensino agrícola no interior mineiro.
Olympio de Araújo publicou Aquarelas (contos), Sorte Única (comédia), Noções de Geografia , Trovas Plangentes e Palmira de Araújo.
Educador autêntico, este homem íntegro e brilhante terminou seus dias modestamente, como diretor do Grupo Escolar de Rio Novo, sua terra natal.
Primeiro ocupante da cadeira 37, Aníbal Matos tornou-se uma referência nas letras e nas artes em Minas Gerais, e particularmente em Belo Horizonte.
Fluminense de Vassouras, teve formação humanística no Rio. As láureas do currículo escolar se multiplicariam nos salões de artes de que viria a participar. Em 1913 foi convidado pelo presidente do Estado, Chrispim Jacques Bias Fortes, para atuar no desenvolvimento das atividades culturais mineiras. Impressionado por nossa paisagem, fixou-se definitivamente na capital, palco de sua capacidade criadora. Da fundação de cursos de desenho e pintura, exposições e incentivos a jovens vocações artísticas, chegou à instituição da Escola de Belas Artes de Minas Gerais, futuro celeiro de valores, e da Sociedade Mineira de Belas Artes, promotora de dezenas de exposições de artistas mineiros no Rio e em São Paulo.Ao lado de intensas atividades de fomento das artes, fundou o Centro do Patrimônio Histórico e Artístico, destinado à proteção das obras de arte tradicionais do Estado. Em 1922, realizou a primeira exposição de arte moderna de Minas Gerais e, em 1934, criou a Academia de Ciências, incumbida das comemorações do centenário do pesquisador Peter Lund.
Diretor, por três vezes, da Escola de Arquitetura de Minas Gerais, lecionou no Instituto de Educação e foi inspetor do ensino de desenho.
Também fundou a Biblioteca Mineira de Cultura, além de assinar crônica diária e crítica teatral e de belas artes no Diário de Minas.
Poeta e teatrólogo, deixou mais de cem livros e opúsculos de poesias, teatro, romance, memórias, teses, estudos e conferências. Eleito para a Academia Mineira de Letras em 1924, presidiu a entidade de 1931 a 1934 e de 1939 a 1942. Faleceu em 1969, aos 83 anos.
Aníbal Matos impregnou-se da alma mineira, expressando-a nas várias formas de sua extensa criação. Suas imagens de Minas estão fixadas em textos e telas. Nestas, fazendas, capelas e chafarizes dividem espaço com ipês, carros de bois e figuras humanas que formam o mosaico de nosso povo.
Edgard de Vasconcelos Barros, meu querido e saudoso antecessor , nasceu em Guiricema, então distrito de Visconde do Rio Branco, em 31 de dezembro de 1912, faleceu em Belo Horizonte no dia 31 de maio de 2003. Era filho de Sebastião de Vasconcelos Barros, formado pela Escola de Farmácia de Ouro Preto, e Maria Graça de Vasconcelos, sobrinha de Arthur Bernardes. De seu casamento com Irene de Vasconcelos Barros nasceram José Antônio, fraterno amigo, ora compondo a mesa desta solenidade e casado com Bethânea, minha conterrânea e irmã de minha cunhada Beatriz; Paulo Henrique, Carlos Roberto, Luis Alberto, Fernando Augusto e Antônio Márcio. A família já emprestara a Minas outros filhos ilustres, como Bernardo, Diogo, Salomão e Sílvio Vasconcelos, além do Cardeal Carlos de Vasconcelos Mota, que ocupou a cadeira número l desta Academia.
Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, especializou-se em Planejamento Rural na Universidade Hebraica de Jerusalém. Mestre pela Universidade de Wisconsin, doutorou-se em Sociologia Rural na Universidade Federal de Viçosa, título então inédito em toda a América Latina. Advogou e serviu Minas como deputado estadual, por duas legislaturas.
Durante 40 longos anos, atuou na Universidade Federal de Viçosa – na cátedra e na orientação de estudantes de pós-graduação, além de ministrar o primeiro treinamento de extensionistas que se espalhariam por todo o País. Suas pesquisas conduziram-no ao deserto de Neguev, onde focalizou uma tribo de árabes nômades de origem otomana. Sua obra – múltipla, ampla e consistente, constitui-se de muitos livros, incontáveis discursos e conferências, artigos em revistas e jornais, no Brasil e no exterior.
Sua tese, que aborda contatos diferenciais entre serviços sociais em quatro comunidades rurais brasileiras, é editada em 1955 , em inglês, pela Universidade de Wisconsin, por onde publicou também monografias e pesquisas realizadas em comunidades rurais do México, da América Central e do Brasil. A Universidade Hebraica publicou Social Planning e conferiu-lhe o título de doutor. A UFV editou-lhe a rica produção técnico-científica, resultado de uma vida dedicada ao magistério.
A tese de concurso – O Problema da Liderança e do Serviço Social Rural –- é um marco em sua obra. Os temas associados à liderança, ao status, à comunicação e ao poder atestam seu talento pioneiro e arguta competência.
Fernando Correa Dias, eminente mestre, testifica que Edgard conceituou o Líder quando nem se pensava em sua configuração.
Sociologia Rural, de 1977, oferece uma compreensão da matéria sem conformismos éticos ou alheios ao quadro social brasileiro.
Princípios de Ciências Sociais para a Extensão Rural trata do processo de mudança face aos traços culturais estratificados da comunidade. Seguro guia para a atuação do extensionista, antecipa o dilema entre estrutura formal e informal, hoje tão familiar na teoria das organizações e nas ciências sociais.
Edgard produziu também uma série de festejadas monografias, ensaios e trabalhos literários. No início dos anos 40, arrebatou o “Prêmio Machado de Assis” da Academia Brasileira de Letras, abordando a obra machadiana.
Ainda estudante de Direito, manejando dons de exímio articulista, iniciou, n´O Correio da Manhã , incansável pregação pela educação, que retomou, anos mais tarde, no Estado de Minas. Outros jornais acolheram sua combativa e lúcida abordagem de temas da atualidade. Publicou apreciados trabalhos sociológicos e de pesquisas sociais no Brasil e do exterior.
Eram, ao todo, 17 irmãos. Família grande? “Na medida: nem sobrando nem faltando...”, garantia Seu Tatão. Embora Edgard fosse o quinto, só Olga, a primogênita, o superava na liderança da grande família. Paciente no ouvir, parcimonioso no falar, fez-se autorizado mediador. Andava léguas para ver um amigo. Aos mais distantes, alcançava com poderosa torrente epistolar.
Espécie de inspetor geral, supervisionava escovação de dentes, capina de horta, deveres escolares e lazer, sem descuidar-se da leitura e da escrita, seus prazeres maiores. Ali, naquele bando alvoroçado, talvez tenha começado a compreender e exercitar a liderança em estruturas sociais complexas.
Menino ainda, descobriu Bilac e Castro Alves. Na biblioteca de Antônio Vilas Boas, forjou sua estrutura literária e descobriu a vocação para as ciências sociais e para o direito. Com o pai aprendeu ser a verdade, a qualquer preço, a única atitude do homem.
Conciliador, persistente e brilhante, jamais se jactava. Como disse o
Presidente Murilo Badaró, “...chamava a atenção sua modéstia, ele que tantos títulos intelectuais e honoríficos tinha para ostentar”.
O tio Padre Levy infundiu-lhe o gosto pelo Latim e pelos clássicos. A rua, especialmente a “Rua Seca”, complementou os livros. Os casos calungas, benguês e cabindas da Maria Caetano transfiguravam-se em poemas.
Bom de bola, vira promessa como Canhotinho. Mas o Sargento do Tiro de Guerra lhe profetiza tuberculose certa se não deixar o futebol. Menos bola, mais leitura, mais preparo. Inspirado em Vilas Boas, futuro ministro do Supremo, Edgard entra para a Faculdade Nacional de Direito, no Rio.
Lá, em plena rua, tocaia e aborda Irene. Enredada pelo sedutor “magricelo”, ela acaba entrando na igreja da Glória de véu e grinalda.
Em Viçosa, ganham e criam seus seis filhos, motivo de orgulho e alegria.
Ainda estudante de Direito, começara a lecionar no famoso Ginásio de Viçosa. Logo, ensina também nos cursos vestibulares da Escola Superior de Agricultura e Veterinária.
Em 1936, convidado Dr. John B. Griffing, Edgar assume a Secretaria Geral da Escola de Agronomia, que já se projetava em toda a América Latina.
Aprende inglês e envereda-se pelas ciências sociais, que o Direito apenas bordejava.
Orçamento apertado, decide advogar.Talhado para o cível, fulgura como orador no júri.
Já na condição de titular da cátedra de Ciências Sociais, recém-criada, saúda Gabriela Mistral em sua visita à Escola, estabelecendo com ela contato transformador. O estudo da cultura andina inspira-lhe as aulas práticas em pequenas comunidades do município.
No salto para a Sociologia Rural, Durkheim e Max Weber ganham o tempero de Emory Bogardus, ex-aluno de Griffing que pontua suas conclusões científicas em cada “caso” enfocado.
A literatura é saboroso contraponto.Em Vieira, Machado de Assis, Aristóteles, Platão e Ovídio marca com vermelho ou azul os argumentos favoráveis ou contrários a determinado conceito, tudo acrescido de engenhoso sistema de pontuação, de uma a cinco estrelas. Do resto incumbe-se a prodigiosa memória.
Impressiona os colegas de magistério. Para um ex-reitor, era “aquele que me fez conservar os pés na roça, mesmo andando no asfalto”. O saudoso Prof. José Secundino São José encheu Seu Tatão de orgulho ao lhe garantir, naquele fraseado meio matuto: “O Edgarzinho é um professor danado de bom”.
Pedro Vidigal exalta-lhe o talento de Professor, Cientista, Político, Prosador, Poeta, Ensaísta e Orador, sem esquecer as famosas cartas. E ressalta-lhe a vida exemplar entre os poderosos instrumentos na realização de seu destino.
Com bolsa de mestrado na Universidade de Wisconsin, parte com Irene, garantia de sucesso nos dois anos de intensa produção. De volta ao Brasil, candidata-se à Cátedra de Sociologia Rural da UFV. Florestan Fernandes, da USP, num reconhecimento ao pioneirismo de Edgard, desiste de concorrer.
Dentre as muitas premiações recebidas, destacam-se as do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, e do Brasil, a Grande Medalha da Inconfidência, a Medalha Recuerdo, da Universidade Hebraica, a Comenda do Mérito Legislativo, em Grau Especial, da nossa Assembléia.
Nada, porém, se comparava à alegria de escrever.
A vida, no entanto, reservou-lhe tristezas e sofrimentos. Perder Irene,a companheira de sempre e terna amante, foi prova terrível, sobretudo por sobrevir à morte prematura de Paulo Henrique, seu segundo filho, cujo vibrante entusiasmo e criativa inteligência marcaram sua contribuição na assessoria do Ministro Paulinelli.
A Academia, realização de antigo sonho, foi também poderoso lenitivo.
Estimulado pelo Prof. Cândido Martins de Oliveira, então Juiz de Direito da comarca de Viçosa e futuro presidente desta Casa, candidatou-se à Cadeira 37. Fundamental para sua eleição foi o apoio de Vivaldi e Edison Moreira, inseparável companheiro de caminhadas literárias. Sob a influência de seus pares, começa a sistematizar formidável coletânea de poemas que transbordavam de seu escritório. Alguns deles compõem “Irene”, seu último livro, publicado para, nas suas palavras, “fixar a doçura e a grandeza com que sempre me estimulou nas lutas que travamos juntos”.
A Cadeira 37 da Academia Mineira de Letras foi, no testemunho de seus familiares, o prêmio mais querido de Edgard, de que ele desfrutou com a modéstia de sempre – mas com intensa, justa e incomparável alegria!
Senhoras e Senhores,
Aqui chego pela democrática e generosa vontade dos imortais que ora me acolhem, talvez sensibilizados mais por meu impertinente entusiasmo do que por rigorosa comparação de méritos. Não consigo expressar todo o orgulho, toda a satisfação de ser recebido na intimidade desta Casa de tantas tradições e inesgotáveis possibilidades.
Meu coração canta louvores, minha alma se cobre da mais pura alegria, da mais límpida gratidão – a cada um, a cada uma, que de tantos modos me ajudou pelos caminhos desta vida que já passou do meio dia, mas anseia por incontáveis alvoradas.
Caro confrade e fraterno amigo Acadêmico Márcio Garcia Vilela, agradeço-vos pelas palavras generosas, pela calorosa acolhida a este cenáculo da imortalidade. Agradeço-vos, sobretudo, pela sempre boa e já antiga amizade, que tanto prezo e quero melhor cultivar.
Ao longo desta vida, por muitas vezes nossos caminhos se cruzaram, por longos trechos seguiram paralelos –dos bancos universitários ao serviço público, até à nossa Procuradoria Geral do Estado, onde fomos colegas e nos aposentamos. Mercê do reconhecido talento e de inexcedível vocação para servir, ocupastes mais elevadas – Diretor do antigo Etra e Secretário de Estado da Fazenda, para ficarmos somente em dois exemplos.
Juntos, fizemos concurso para o que era então o mais alto cargo de carreira do Serviço Público Estadual, sendo, felizmente, aprovados.
Espero que este reencontro possa aprofundar afetuoso convívio com um amigo em quem sempre admirei a inteligência arguta e a integridade de caráter, qualidades a que pude acrescentar, em tempos mais recentes, como objeto de minha admiração, o refinado gosto literário e o sofisticado estilo de escrever.
Dever-vos-ei sempre, distinto confrade e querido amigo, esta fraterna acolhida na Casa de Alphonsus de Guimaraens.
Senhoras e Senhores,
Deste cume onde me encontro, posso contemplar os lugares de onde vim. E mirar o horizonte que me espera. Na saudosa lembrança de meu pai, beijo minha mãe, mulher de fibra admirável e alma leve que, após criar 15 filhos, curar umbigo de muitos netos, se multiplica agora em amplo arco de amoroso apoio, que vai de creche a asilo, passando por júri de escola de samba e mutirão comunitário. Com Vânia, que voltou a ser Damata Pimentel, partilho Paulo Sérgio e Ana Cláudia, amados filhos dos nossos sonhos. E uma bela penca de netos, que nomeio e abençôo: Davi, Rachel e Daniel; Julinha, Alice e o esperado Miguel. Vânia será sempre credora de meu carinho e gratidão pelos mais de 30 anos que passamos juntos e, especialmente, pelo estímulo que dela sempre recebi.
A Kátia Chaves, agora também Romano, a esperança de tempos ditatados no sonho de descobertas e realizações. A cada um dos meus irmãos, cunhados e sobrinhos, que não vou nomear, mas que abraço com o carinho de sempre, a renovada alegria por mais esta comunhão.
Aos companheiros e companheiras de hoje, de ontem e de sempre, também dedico esta vitória. Dedico-a, igualmente, aos que batalham por nossa cultura popular, afirmação e força da gente no mar globalizado.
Senhores e Senhoras,
Do cume em que me encontro, repito, peço a Deus que abençoe sempre meu caminho. Sob a potente aura desta Casa, que prometo honrar em cada gesto, espero que o escrever nunca termine. E que a luz da inspiração a cada passo me ilumine.
Iniciado no ritual que ora termina, possa eu, como águia altaneira, recolher-me na gestação do novo. Na busca de outros vôos, trocarei penas e garras para então lançar-me ao amplo céu que me espera.
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